sábado, 20 de agosto de 2016

Limites e fluxo na lida com crianças pequenas

De uns dois anos pra cá tenho me envolvido com abordagens bem libertadoras da Vida. O conceito de fluxo, a observação dos paradigmas (os que vivemos, os que nos impõem, os que queremos e será que precisamos mesmo de paradigmas?!). Com isso vem uma nova ótica de respeito ao corpo, às vontades, aos instintos, às intuições - e um claro pé atrás com as instituições, com as tradições, com as regras, com o "mas sempre foi assim!". Vem também toda uma revisão das crenças ou, antes, uma atenção em identificar o que é crença e o que é Lei, assim mesmo, com L maiúsculo, pois me refiro às Leis da Vida, e não a essas que inventamos por aí pra tentar exercer um ilusório controle, uma ilusória organização.

Trazendo esses conceitos e essas práticas pra minha vida tudo ficou bem mais leve. O agora assumiu um novo brilho e pude sentir finalmente o que havia buscado por anos em meditações e práticas yôguis.

Só que na relação com meu filho pequeno, agora com 3 anos, tinha algo que não encaixava. A máxima zen budista - comer quando tem fome e dormir quando tem sono - que eu amo e conheço desde criança, e que tem tudo a ver com essa onda que tenho descoberto agora, simplesmente não funcionava quando eu tentava aplicá-la com o Joaquim. Funcionou no começo, quando o comer era amamentação em livre demanda e quando o sono era embalado pelo peito. Era lindo, fluía.

Mas nas transformações dos 2 anos, 3 anos, percebi que eu não podia simplesmente deixar com que ele regulasse seu corpo, ou melhor, com que ele tivesse a responsabilidade de identificar sozinho as necessidades do seu corpo, do seu ser em formação, e as atendesse, ou pelo menos as comunicasse. Olhando em retrospecto me sinto tão ingênua, negligente até; Eu queria que o Joaquim, ao sentir forme, identificasse que era fome e me falasse que estava com fome. Ok, de preparar e oferecer a comida eu me encarregaria, rs... a mesma coisa com o sono. Como demorei pra me dar conta do tamanho da tarefa que eu estava depositando nas mãozinhas rechonchudas dele. Mas, poxa, é tão difícil assim perceber que está com fome?! Que está com sono?! E simplesmente falar? Você já tem uma pessoa ali ao seu dispor pra fazer tudo o que for preciso, você só precisa falar. Mas sim, é uma grande tarefa...

E agora, refletindo sobre isso, estou entendendo que "viver no fluxo" não é simplesmente "deixar rolar", mas é estar atento e forte. No caso do meu desafio particular, e que imagino que seja o desafio de 99% das mães e pais, quando lidamos com uma criança pequena precisamos redobrar a atenção, precisamos estar atentos a eles, precisamos decifrar códigos, ler sinais, farejar. A comunicação não é (só) verbal, a comunicação é muito sutil e a "vida adulta" nos acostuma muito mal a identificar as sutilezas. Essa atenção toda talvez canse, mas o cansaço é um sinal de que estamos saindo do fluxo (!). Por isso que precisamos também estar fortes. Precisamos nos abastecer, nos revigorar, nos arejar. Precisamos aliviar a tensão dos ombros e deixar o corpo leve. O corpo molinho entra no fluxo. Mas o corpo tem que estar molinho E energizado, porque senão cai na preguiça, na inércia, no "deixa rolar". É um estado entre o sono e a vigília, uma combinação alquímica, uma medida exata e perfeita. E o mais maluco - e óbvio - é que essa combinação também flui. Não se trata de uma fórmula a ser encontrada, mas sim de um "estado" a ser cultivado. O tal do "estado de presença".

Talvez dizendo assim você possa achar tudo confuso e muito complicado. Desculpa. Não é essa a ideia. O grande barato é na verdade cultivar esse estado de presença, encontrar essa combinação alquímica entre leveza e atenção. Com leveza e atenção. Pra mim tem sido lindo, mágico, excitante. Me sinto uma criança descobrindo o mundo. Aquela coisa que o Gaarder fala no Mundo de Sofia: viver na ponta do pelo do coelho (aqui um texto que escrevi há anos onde fiz a mesma citação e aqui a citação original do livro).

Antes de prosseguir, uma ressalva: essa coisa linda, mágica e excitante inclui momentos de profundo desespero, inclui gritos, inclui choro, inclui dúvidas. Numa frequência cada vez menor - e intensidade nem tanto. Imagino que nunca deixarão de existir... outra hora falo sobre isso, mas só pra você saber que não estou te enganando. Tenho sim minhas crises! Todos temos, afinal.

Vou falar agora brevemente sobre uma abordagem sobre limites que me abriu horizontes e aliviou as crises. Está nesse contexto da lida com crianças pequenas, mas funciona em qualquer relação.

A primeira coisa é que o limite tem que ser claro e verdadeiro não só pra quem o recebe, mas também pra quem o aplica. Da próxima vez que for comunicar um limite a uma criança, tire alguns segundos pra analisar o limite e faça-se a pergunta que provavelmente a criança fará: por quê?! Responda a si mesmo com toda a sinceridade que possa recolher e continue indagando porquês até que aquele limite esteja perfeitamente claro, verdadeiro e necessário - ou desmorone.

Você não vai fazer isso toda vez, não é um "protocolo de como aplicar limites". A ideia é fazer algumas vezes, em situações tranquilas, que não envolvam estresse e decisões rápidas, só pra você perceber o que é um limite claro e verdadeiro; só pra você perceber de onde vem os limites que você precisa comunicar - se de reais necessidades ou se de imposições culturais, crenças, paradigmas antigos.

Feito isso, desapegue-se imediatamente dos limites falsos! Deixe ruir o "porque sim", o "porque está na hora" (sim, às vezes estar na hora é um limite claro e verdadeiro, mas nem sempre), o "porque todo mundo faz assim", o "porque ninguém faz assim"... permita-se atualizar o sistema. E não caia na armadilha de achar que "encontrou a fórmula". O mesmo limite pode ser claro e verdadeiro num momento e totalmente arbitrário em outro (como o "está na hora").

Quando você tiver conseguido investigar a consistência dos limites que precisa comunicar, certamente vai se sentir absolutamente seguro ao comunicar um limite, e essa segurança bastará pra enfrentar os protestos, quando ocorrerem. Porque isso também é uma crença, uma falsa afirmação: "todo limite é acompanhado de protesto". Da mesma forma que dizer "quando eu souber comunicar um limite não haverão mais protestos" é uma grande ilusão!

A questão é que quando você tem clareza do limite, tem também clareza pra prosseguir com seu cumprimento. Essa clareza de prosseguir com o cumprimento do limite traduz-se em não envolver emoções no processo. Se você diz pra criança fazer ou não fazer algo e ela age na via oposta, ou protesta, isso não é motivo pra ficar bravo, pra dizer que não gosta, que vai ficar triste... nada a ver! Claro que muitas vezes esses sentimentos vem, ficamos com aquela sensação de sermos desrespeitados, humilhados, ou simplesmente perdemos a paciência. Tudo isso indica outras questões, nossas, que não são da criança e que devem ser analisadas em separado daquela situação. Uma coisa são as suas questões e outra é a necessidade da criança obedecer a um limite. Saiba diferenciar essas duas coisas. Para o bem de todos!

E por aqui chega.


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Mãe só atrapalha

É comum a gente ouvir e até presenciar que filho quando está com a mãe fica mais manhoso, mais birrento, dá uma regredida e não faz a menor questão de colaborar com o árduo processo civilizatório.

Meu caminho normal depois de uma frase dessa seria investigar os porquês. Mas não, dessa vez será diferente. Deixemos dessa frescura de porquês e reflexões, esses blábláblás todos e passemos às soluções. Bom, se a criança fica manhosa e birrenta na presença da mãe, a solução é muito simples: afaste-a da mãe!

Pronto. Caso encerrado. Boa noite.



Só que não, né? Simplesmente porque ao contrário da maioria, maioria, maioria das pessoas, meu filho não admite ser separado de mim. Ou me mostra que quem não admite sou eu, mas, enfim, não rola. Ele chora, chora aquele choro de cantinhos da boca pra baixo, lágrimas escorrendo devagar por um rostinho contorcido. Não se pode duvidar da razão daquela dor, como aprendi com meu amado Gil. Eu poderia até dizer que não tenho coragem de passar por cima disso, mas acabo de me dar conta de que é o contrário! Quando eu identifico uma dor no Joaquim, meu ser se enche de toda a coragem do mundo pra fazer o que for preciso para protegê-lo dela. Eu não sou o tipo de covarde que abandona meu filho ao próprio choro quando ele me estende os bracinhos e diz que quer ficar comigo. E não venha me dizer que "ele precisa aprender" isso ou aquilo às custas de dor e abandono. Não foi assim quando ele era um recém nascido, não foi assim quando ele era um bebê e continuará não sendo assim agora que ele é uma grande e autônoma pessoa de três anos. Mais tarde a gente volta a falar sobre isso, mas pelo rumo que as coisas estão tomando, acho pouco provável que eu mude essa estratégia tão cedo...

A essa altura você deve estar aí pensando: "ah, mas é claro que ele vai ficar manhoso! Ele sabe que você tem coração mole!".

Pois saiba que o Joaquim não fica manhoso e birrento de forma gritante e evidente só pela magia da minha presença. Ao contrário: quando está comigo ele se sente seguro e amparado, ele fica em paz.

Só que não adianta explicar isso pras pessoas que gerenciam os lugares onde as crianças são separadas das mães. A regra é clara - tão clara quanto burra, burra como toda regra geral que tenta-se aplicar aos seres humanos, simplesmente porque cada ser humano é um universo em si, diverso de qualquer vizinho e, portanto, absolutamente impossível de se aplicar regras gerais. E onde há burrice não há diálogo. Estou aqui, no auge da minha fúria, chamando de burrice o comodismo de proibir ao invés de educar; o comodismo de proibir ao invés de dialogar; o comodismo de se iludir com regras gerais e fechar os olhos pras particularidades de cada ser humano.

Essa fúria deve-se ao profundo sentimento de abandono, solidão e desamparo que senti quando fui convidada a me retirar daquele lugar onde habitualmente separam crianças de mães. Eu achei que por se tratar de uma "atividade de férias" a rigidez fosse deixada de lado, mas me enganei redondamente. Eu era uma mãe precisando que me ajudassem a mostrar pro Joaquim que ele pode confiar em outros adultos, que além dos quatro ou cinco que ele confia podem existir outros. Mas de fato não seria ali que encontraríamos esses adultos... como pude ser tão ingênua? Onde não há diálogo, não há confiança.

Pois bem, esse tipo de episódio me põe na categoria de minoria, e ser minoria dói, simplesmente porque a solidão dói. Mas ainda prefiro a dor de me reconhecer como sou do que a dor de querer ser e não ter coragem de ser. E na verdade não se trata de preferir, não é uma escolha. É o único caminho possível.

Só me resta soltar aqui esse uivo solitário nessa noite fria.

E não ousem me separar do meu filho!


quinta-feira, 7 de julho de 2016

Acessibilidade para crianças

Desde que tenho me envolvido com o "mundo materno" tenho visto movimentos muito lindos de humanização (ou naturalização?) do parto, de apoio à amamentação, de apoio às mães puérperas, de respeito às necessidades da criança, enfim, pequenos grandes passos em direção a relações mais harmônicas e respeitosas, à construção de um mundo mais amoroso. Vou dando aqui minhas contribuições reflexivas e a de hoje é de ordem bem prática: como anda a acessibilidade para crianças e seus cuidadores nos locais públicos?

Tenho a impressão inclusive que estou criando um termo! Alô CREA, será que acessibilidade infantil vira também requisito pra aprovação de plantas e afins?! Brincadeira... cada vez mais eu acho que não dá pra viver à mercê de leis, a responsabilidade é de cada um e cada um de nós pode fazer diferente, mesmo que isso não esteja nos manuais e protocolos.

Pois bem, vamos aos tópicos:

- Banquinho pra alcançar a pia: senhores proprietários, gerentes e responsáveis por restaurantes e qualquer lugar que tenha um banheiro que pode vir a ser usado por uma criança pequena, por favor, olhem pra isso! É um investimento baixíssimo (tão baixo como o banquinho, rs...) e que faz uma diferença danada pra coluna da mãe ou pai ou quem quer que seja que vá ajudar a criança a lavar as mãos. E faz uma diferença pra criança também, que tem sua autonomia valorizada, que se sente acolhida (vou falar sobre isso no final). Acho curioso ninguém ter se atentado a isso, pois muitos dos lugares que frequento tem trocadores, tem "espaço kids", mas não tem o bendito banquinho! Ou sou só eu que sinto falta do aparato?!

- Assento pra privada: eu não sei qual o fascínio que banheiros de restaurantes exercem, mas o Joaquim frequentemente pede pra fazer cocô! E lá vou eu, naquele banheirinho apertado, ficar agachada segurando ele, ou mesmo em pé, mas ele detesta quando eu fico em pé, enfim, é sempre desconfortável pra ambos. Da mesma forma que o banquinho, é um investimento muito pequeno, mas que faria taaaaaaanta diferença nas vidas de crianças pequenas e acompanhantes de crianças pequenas!

- Corrimão em altura de criança: mais uma vez a autonomia da criança. Não é porque uma criança pequena SEMPRE estará acompanhada de um adulto, que não podemos fornecer a elas elementos para que possam cuidar da sua segurança. Claro que quem me chamou a atenção pra isso foi o Joaquim, que fica muito feliz quando encontra uma escada com corrimão na altura dele!

- Utensílios adequados: quase todo restaurante tem cadeirão de alimentação, mas raríssimos tem pratos, talheres e copos adequados pras crianças. Não precisa ser nada muito especial, inclusive, aqui em casa usamos os utensílios de sobremesa e o Joaquim bebe em copo de vidro há bastante tempo, mas tem vezes que o garçom esquece até de colocar prato pra ele na mesa do restaurante! Bem, aí a questão não é nem ter o utensílio, mas ter um olhar atencioso e saber que criança também é gente, rs... Mas quando o garçom traz um pratinho colorido ele fica tão, mas tão feliz... Outro detalhe besta é o canudinho. Eu não gosto de canudinho, acho um desperdício de plástico, mas o Joaquim ama. E só depois que ele começou a gostar de canudinho eu fui entender a função daqueles que são flexíveis. Na altura de uma criança em relação à mesa e com aqueles copos altos, ela VAI TER QUE dobrar o canudinho pra conseguir colocar na boca! O canudinho sanfonado faz TODA a diferença...

- Brinquedos: eu sempre fui adepta do "criança brinca com qualquer coisa", "o melhor brinquedo é a criatividade", mas é impressionante como a simples presença de qualquer porcariazinha de plástico colorido entrete a criança! E vamos e venhamos... por mais que a gente tenha uma mesa inclusiva, o papo de adulto vai rolar e a criança vai ficar com aquela sensação horrível de estar entre estrangeiros e não entender direito (ou nada!) a língua. Ah, não adianta dizer pra levar brinquedo de casa... não, eles se tornam automaticamente completamente desinteressantes quando estão passeando! Pode ser também alguns livrinhos, uma caixinha de giz de cera com folhas em branco (em branco, please...). São pequenos cuidados que não tiram a criança do ambiente (como iPads e cia, que me entristecem profundamente, mas confesso que até por aqui já apelamos pro celular na mão do Joaquim, só pra poder terminar o jantar em paz...). Esses cuidados acolhem, deixam a criança mais confortável (e os pais também, claro).

O que mais?! Do que você sente falta quando sai de casa com seu filho? Há algo que os donos de estabelecimentos poderiam fazer para que vocês se sintam mais confortáveis e acolhidos?!

E ser acolhido é de fato o mais importante, que vai muito, muito além de qualquer bugiganga, é aquela coisa que não tem preço. Quem me chama o olhar pra isso é sempre o Joaquim e as crianças com quem convivo. Eles ficam tão, mas tão felizes quando veem que algo foi preparado especialmente pra eles! Isso não é mimar, isso não é "infantocracia". Observe com olhos atentos e honestos: o que nos ambientes que você frequenta inclui as crianças? O que foi especialmente preparado para que uma criança use e o que foi especialmente preparado para que um adulto use?

Muito tem se falado em "adultização precoce". Claro, eu quero estar incluída no ambiente em que vivo! E se pra isso eu tenho que crescer rápido, vamo que vamo!

Valorizar a infância, cuidar da infância é cuidar das relações, mas é cuidar também do ambiente. Do ambiente em casa e dos ambientes que frequentamos.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Filho, hoje você dançou com a sua sombra!

Foi uma das cenas mais lindas que você me proporcionou até hoje... tão singela e tão poética... tocava um álbum de cantigas de roda e numa valsinha, nem lembro qual, você parou seu caminho entre a sala e o quarto, olhou pra parede e dançou com a sua sombra. Fiquei quietinha, olhando e querendo que aquele momento se eternizasse, que ficasse tatuado nas minhas memórias.

E da mesma forma que começou, se desfez, outra coisa chamou sua atenção...

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Chorou, passa pra mãe! Ou não...

Sabe aquela frase célebre de tia? "Ter sobrinho é ótimo, porque você aproveita a parte boa e se chora é só devolver pra mãe!" Ultimamente tenho matutado sobre criação compartilhada (não sei se o termo existe, já já volto nele) e um episódio de hoje me fez repensar essa frase, essa coisa de "se chorar é só chamar a mãe".

Estamos aqui em casa lidando com gripes, febre e tosses há uma semana. Primeiro o pai, depois o filho e por último a mãe (que bom que a gente reveza!). Tive uma noite de sábado com pouco descanso, passei o domingo fracota, tive febre, coisa que há muito não acontecia, dormi mal de ontem pra hoje. O Joaquim ainda não está 100% e demanda com suas manhas.

Pois bem, fui deixá-lo na minha mãe, coisa que faço toda segunda à tarde. Fiquei lá um tempo, ele estava manhoso, esperei ele ficar bem e saí.

Passei no supermercado e quando estava vindo pra casa pra finalmente descansar um pouco, recebo uma mensagem da minha mãe, dizendo que o Joaquim estava chorando e que ela ia trazê-lo pra mim.

NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!

Liguei pra ela e falei que eu precisava da ajuda dela, que eu estava cansada e que ela precisava dar conta do Joaquim. Em outros tempos eu diria "ok", pensando "o filho é meu, eu que preciso cuidar dele". Aí ele chegaria, eu estaria cansada, ficaria mais cansada, teria uma paciência nula e seria pior pra nós dois (e pro pai também, que chegaria em casa no meio de um caos). Isso já aconteceu algumas vezes...

Hoje precisei dessa gripona, com febre e tudo, pra entender que sim, o filho é meu, mas não, eu não tenho que cuidar dele sozinha, eu não sou a única responsável por ele!

Eu já ultrapassei limites pra não incomodar o pai, que estava trabalhando, coisa que não faço, logo, pensava eu, o mínimo que tenho que fazer é dar conta da casa e da criança! E isso me serviu pra entender que ultrapassar esse tipo de limite só serve pra rever nossos (pre)conceitos e resolver contratar uma empregada, ou coisas do tipo, ou seja, não é aquela sensação de superação "eu consigo!". É a sensação de "caramba, eu não consigo MESMO!".

Depois disso eu já pedi arrego pro pai, pra não incomodar a vó, afinal, o filho é nosso, a gente que cuida. Hoje eu poderia ter feito isso. Mas por um instante de lucidez, não fiz! (um dia espero poder aprender essas grandes lições sem precisar de gripe, febre, choro...).

E aí me volta uma frase da Laura Gutman que me intriga desde muito antes de ficar grávida: "uma mãe e um pai não são suficientes pra criar um filho".

Claro que não são! Vai precisar de vó, de vô, de tia, de madrinha, de amigo. Até de médico! E se não puder contar com essas "ajudas" vai ter que terceirizar: babá, creche, escola, televisão, tablet... (estamos em campo polêmico e é aqui mesmo que quero estar. Se isso te cutuca é pelo simples fato de que você acaba de constatar que uma mãe e um pai não são suficientes pra criar um filho! E com essa constatação você pode ter mais clareza da rede na qual vem se apoiando pra criar seu filho, ou melhor: da rede que você vem tecendo pra criar seu filho. Porque o papel de mãe e pai não é assumir TODA a responsabilidade pela criança, mas sim tecer uma rede que a ampare).

Então eu chego em casa e posso finalmente descansar. Mas me pego pensando "Será que o Joaquim ficou bem?", "Será que eu ligo pra saber como ele está?", "Se ele tivesse dormido minha mãe me avisaria... por que ainda não avisou?!", "Tadinho, como eu sou insensível! Eu deveria ir lá buscá-lo!".

Vi que não conseguiria descansar com isso tudo martelando e ao mesmo tempo não tinha forças pra ir lá buscá-lo. Resolvi escrever!

Essa coisa de confiar na minha capacidade de tecer uma rede pra amparar meu filho (e a mim, em última análise) foi me acalmando. A minha mãe é a pessoa no mundo (depois do pai, é claro), que mais confio pra cuidar do Joaquim. Por tudo que ela é e pela proximidade que temos, pela convivência, porque o Joaquim fica muito à vontade com ela. Então, com o que me preocupar?

Pode ser que o Joaquim sofra um pouco... só que antes agora do que mais tarde. E se sofrer agora é porque não fui capaz de passar essa confiança antes. Paciência. Precisei de alguns tropeços pra ter essa clareza, mas agora que ela chegou, o que quero é ensinar pro Joaquim que ele está seguro com quem eu - ou o pai - designar que ele esteja. E eu sei que logo ele vai ter discernimento pra escolher com quem ele se sente seguro, mas num primeiro momento tenho que dar uma forçada de barra, pra romper o "vício" (é uma palavra forte, mas tenho visto ultimamente que mãe vicia! Eu tenho sido super apegada com o Joaquim e isso certamente acabou gerando esse vício. Não me culpo por isso, na verdade ainda acho melhor assim do que o contrário, mas avaliando em retrospecto vejo que me faltou essa confiança na rede; e não só confiança, mas merecimento também; ou reconhecimento de que é necessário e natural e não "folga"; ou ainda, essa compreensão mais ampla do que são os papeis de mãe e pai).

E por falar em rede e pra não deixar em aberto o termo "criação compartilhada", nem sei se ele é necessário, porque toda criação é, de alguma forma, compartilhada. A questão é ter consciência de com quem compartilhamos. A questão é assumir esse papel de mãe ou pai enquanto aqueles que escolhem com quem compartilhar, sabendo que compartilhar ou não não é uma escolha!

Sei que às vezes parece que a gente não tem escolha. Você tem um emprego, precisa desse salário, fica grávida, tira licença. E quando acaba a licença?! Ou mesmo enquanto está de licença... quem cuida de um recém nascido sozinha?! Mesmo que o pai seja um cara bacaníssimo, os dois não dão conta. Não é pra dar... vocês já começaram a tecer essa rede de alguma forma...

Mas só pra não deixar em total desamparo quem se sente sem escolha, acho que o maior barato de ter filho é que eles viram a gente do avesso. Filho vem pra balançar tudo o que a gente acredita, filho vem pra nos mostrar que todo aquele nosso planejamento agora não serve mais, filho vem pra nos revelar novas habilidades que nem sabíamos que tínhamos. A única coisa que precisamos fazer é deixar, soltar. Não o filho, a nós mesmas. Quando a gente se deixa, se permite, se solta, se abre, as possibilidades se apresentam e então podemos escolher. Enquanto estivermos presas em nossas velhas e enrijecidas formas de pensar e agir, não existem possibilidades e sem possibilidades não existem escolhas.

(isso serve desde o parto, quando literalmente precisamos soltar e abrir. Na época eu não consegui. Estava presa em minhas certezas... e serve também pra amamentação, quando também precisamos soltar, deixar fluir, deixar jorrar! Essa eu consegui, e que alegria ter sido merecedora dessa paz! E é um aprendizado constante. É preciso estar atento e forte. Não dá pra dizer "agora eu sei". A grande sabedoria é saber que a gente nunca sabe!).


PS - enquanto eu escrevia minha mãe mandou uma mensagem dizendo que o Joaquim tinha dormido. Ufa!

PS2 - jamais insista em ficar com uma criança chorando sem que a mãe saiba, ou sem que isso tenha sido combinado! Por exemplo, você pode não comunicar a mãe que a criança está chorando se o acordo tiver sido "fique com ele mesmo que ele chore e se chorar não me avise!". E nesse caso, não julgue... apenas conheça seus próprios limites, porque ficar com uma criança chorando é dose! E se não tiver combinado nada, avise da seguinte forma: "Fulaninho está chorando, posso ficar mais com ele e fazer alguma coisa para acalmá-lo, tudo bem?". Ou se você não é capaz de lidar com criança chorando diga logo de cara, antes da mãe sair "Eu fico com ele, mas se ele chorar vou ter que te chamar!". Tudo fica tão mais fácil quando está claro... o que não significa que não possamos tatear no escuro... mas com a clareza de que está escuro!

PS3 - mães, confiem! Confiem no seu discernimento de escolher com quem deixar seus filhos. Tenha consciência, escolha e deixe. Faça os combinados necessários, e deixe. Nada disso impede que você volte atrás ou ligue pra saber como está... mas tome um chá antes... se passar, passou. E intuição de mãe é muito forte. Se for algo realmente necessário, você vai saber, antes mesmo do chá. Como saber se é intuição ou se é insegurança? Escolhendo com consciência. Sabendo que você pode escolher, saindo do lugar de vítima, assumindo suas escolhas.

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Quero fazer uma atualização! Fomos buscar o Joaquim e ele estava ótimo. Jantamos lá todos juntos e quando eu estava aqui em casa, na cama com ele agorinha esperando ele dormir tive uma sensação muito forte de que pra ele é muito importante saber que ele pode contar com as pessoas! Antes era assim: "putz, se eu não fico bem aqui, a única coisa que pode me salvar é minha mãe aparecer!". E agora ele pôde sentir "minha vó é capaz de me dar o que eu preciso, existe mais uma pessoa no mundo com quem eu posso contar". Gente, vocês tem noção da importância disso?!?! E nós, mães que achamos que temos que dar conta de tudo sozinhas, privamos nossos filhos de ter com quem contar. Cruzes!


sexta-feira, 2 de outubro de 2015

mas é um simples futebol!


Esses dias levei o Joaquim pra ver um treino de futebol (faz parte da minha atenção pra proporcionar "televisão ao vivo", mas isso é outra história...).

Durante os poucos minutos que ficamos lá (lembrar disso quando for escrever sobre televisão ao vivo) dois garotos me chamaram a atenção. Eles não corriam, interagiam muito pouco com a bola e com os colegas, o professor nunca direcionava suas orientações a eles. Não tem jeito, as minorias, os que "fogem aos padrões", chamam a minha atenção e foquei nesses dois garotos.

Por que eles tinham ações tão diferentes dos demais?  Eu comecei a ver inclusive uma tensão nesses meninos, uma solidão, aquilo foi me dando um aperto.

Como fazer pra que eles interagissem mais? Como cuidar pra que um simples futebol seja mais inclusivo? O que faltava àquele professor que ele não enxergava o que eu enxergava ou, se enxergava, porque ele não fazia nada?

A resposta é, a princípio, muito simples: esses dois garotos eram os goleiros!

E aí, quem topa um futebol sem goleiro?!



domingo, 27 de setembro de 2015

Joaquim, você cresceu! Vem crescendo, claro, desde que nasceu, mas de uns dias pra cá você cresceu tanto, virou "menino grande". Dispensou o cadeirão e come na cadeira normal; anda fazendo xixi na terra e já estreou a privadinha.

Tem um andar decidido, principalmente quando tem outras crianças por perto. Se forem meninos grandes então, você parece um bad boy, com gingado e tudo!

Fico muito feliz com essa evolução toda, mas de repente percebo que você quase não fica mais no meu colo... então aproveito quando você dorme. Te abraço e faço carinho à vontade. E aproveito cada segundo do caminho entre o carro e sua cama, quando você chega em casa dormindo. Você pesadão no meu colo, todo largado... ai que saudade!!!

Te amo demais moleque!