domingo, 2 de abril de 2017

As necessidades de um bebê

Um bebê precisa de sossego.

Sossego é silêncio. O silêncio natural da casa, com seus ruídos costumeiros. Sossego é tempo. O tempo que levam suas experimentações. Respeitar esse tempo é deixar que a experimentação acabe em seu ciclo normal e é também não querer prolongá-la quando já não faz mais sentido.

Mas não pense que sossego seja isolamento! Sossego é também ter a segurança de que alguém está ali para o amparar. Sossego é saber que, por mais que seu corpinho em desenvolvimento não possa se locomover independentemente, há ali um corpo adulto que lhe empresta sua mobilidade.

Sossego também não é ausência de interação! Sossego é contar com o conforto de um corpo adulto que o embale, que o aqueça, que o faça sentir a pulsação da vida em pulmões e coração, como que dizendo "olha, é assim que se vive". Sossego é ter seus resmungos atendidos e seus sorrisos e olhares retribuídos.

Um bebê não precisa de estímulo. O mundo e seu próprio corpo já são estímulos suficientes! E extremamente cansativos... se você quiser proporcionar algo a um bebê, proporcione sossego.

Esse sossego atento, presente, prestativo, amoroso, humano.

quinta-feira, 2 de março de 2017

Fenômenos da maternagem

Esses dias comentei com duas amigas, mães amamentantes, como eu sinto um prazer quando o Jorge mama (!). Uma delas, também amamentando seu segundo filho, disse que também sente, e descreveu como uma euforia.

Com o Joaquim eu não senti assim. Era gostoso, era um momento de aconchego, era gratificante, mas fisicamente eu sentia uma leve dor do leite descendo. Nada muito forte, mas acho que essa dorzinha não deixava vir o prazer. Minha doula explicou que amamentar o segundo é mais tranquilo, porque os dutos já estão "amaciados" e aí dói menos, ou não dói. E acho que é exatamente isso que tá acontecendo comigo! Eu sinto o leite descendo, mas não dói. E aí vem um prazer físico mesmo, uma coisa muito doida. Na maioria das vezes é o mesmo prazer que tenho quando como um doce BEM gostoso. Sério!

Mas hoje aconteceu algo extraordinário! Um dia normal em casa, Jorge começa a mamar e sou surpreendida por uma sensação muito clara de algo que é uma das coisas que mais gosto na vida: secar ao sol depois de um banho de cachoeira. Sim, isso mesmo! O corpo formigando pela água fria, mas já se aquecendo com o sol e com o calor da pedra, e tudo isso amplificado pelo estado de êxtase de estar diante de uma queda d´água cristalina, num lugar semi deserto, com um céu azul brilhante enfeitado com poucas e pequenas nuvens. Fui lá pro rio Macaquinho, revivendo um dos melhores banhos de cachoeira que já tomei na vida!

Em fração de segundo. Fui e voltei. Voltei tão renovada quanto se tivesse de fato tomado o banho.

E ele lá mamando, sem saber de nada... ou sabendo de tudo! Claro que sim, sabendo de tudo!


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

vai passar...

Vai passar. Esse tem sido meu mantra desde as primeiras semanas de gravidez, quando comecei a passar mal. Vai passar.

E lá se foram 6 meses de enjoos mais 4 meses de azia! Sim, porque a gravidez durou 10 meses! E no final, aquele desconforto pra dormir, aquele peso, aquele cansaço e eu no meu mantra: vai passar.

E lá se foram 42 semanas de gestação!

Até que finalmente, quando eu já estava lançando mão de métodos caseiros de indução e considerando seriamente algo mais invasivo, começam as contrações. E logo ficam fortes. E dolorosas. E eu no meu mantra: vai passar.

E lá se foram 36 horas (!!!) de trabalho de parto. Com MUITA dor. Até que foi constatada uma DCP e partimos pra cesariana. Continuei no meu mantra: vai passar.

E lá se foi uma cirurgia demorada e complicada. E com isso precisei ficar um dia a mais no hospital, a médica queria que eu ficasse ainda outro, mas escolhi voltar pra casa e assim fui. Fraca, com anemia, com sonda, tomando injeção de antibiótico duas vezes por dia e continuando com o mantra: vai passar.

E de fato passou. No dia que tirei a sonda e os pontos - uma semana após a cirurgia - senti que renasci. Ainda fraca pela anemia, mas renascida.

Pois logo em seguida, TRÊS DIAS pra ser exata, fizemos nossa mudança. Pra casa nova, uma alegria, mas uma baita de uma mudança! Eu, claro, não carreguei um copo. Fisicamente a mudança não me exigiu em nada, mas tem todo um abalo né, as coisas ainda meio sem lugar... a personificação exata do meu estado emocional: tentando juntar os caquinhos e avaliando se vale a pena colar - como se tivesse escolha. Dessa vez com menos otimismo, mas ainda insistindo no mantra: vai passar. (menos otimismo porque a impressão é que as coisas NUNCA iriam se ajeitar, ao contrário das situações anteriores, onde dava pra vislumbrar algum prazo, por maior que fosse, por maiores que tenham sido).

E o nenê?! Claro, o nenê! Nasceu ótimo, passou as primeiras semanas sossegado como um anjinho, dormindo longas horas. Certamente ele sabia exatamente onde estava se metendo... mas assim que a poeira ameaçou baixar, Jorge ficou inquieto. Devem ser as tais das cólicas, que não tivemos com o Joaquim.

Então me vi com um nenê chorão, que não sossegava mamando, e tremi. Num ato reflexo, automático, ameacei pensar "vai passar". Mas trago comigo uma centelha de lucidez que gritou "OPA! Peraí! Vai passar O QUÊ?! Vai passar a sua vida. Vai passar a vida do seu filho!".

E aí me dei conta da grande armadilha desse mantra... porque o que passa é a vida, quer passemos por ela ou não.



PS - ainda não consegui escrever sobre o Jorge. Ele é tão lindo! Mas tenho que digerir algumas coisas sobre mim antes de chegar nele...






quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

As relações trabalhistas e nossos resquícios escravocratas

Ontem fui ao clube e me informei sobre o procedimento pra cadastrar um acompanhante pra entrar com meu filho. Joaquim tem três anos, está prestes a ganhar um irmão, o verão está aí e preciso contar com pessoas pra levá-lo passear no clube, coisa que ele adora fazer.

Quando li o formulário e as regras, tudo dentro do previsto, mas confesso que gostaria de ter me espantado. Digo isso porque eu já esperava me deparar com alguns absurdos, mas isso não me isenta de um grande incômodo, uma certa indignação e a vontade de sair por aí perguntando pras pessoas "por quê?!?!?".


Ok, apresentar RG, básico. Agora, não utilizar piscina? Não tomar sol? Não utilizar traje de banho? Por que, por que, por quêêêêêê?!?!?! Essa pessoa vai levar meu filho ao clube principalmente pra brincar na piscina. Ela precisa utilizar a piscina. Não pra ficar lá folgadona enquanto eu pago o salário dela, mas porque ela está cuidando e fazendo companhia pra essa criança, precisa interagir, precisa entrar na água, enfim, precisa de liberdade de movimento, precisa se sentir à vontade pra desempenhar o papel de cuidadora. E nesse caso, o melhor é que esteja em traje de banho, como uma pessoa normal. E por que não poderia tomar sol? Qual o problema?!?!

Sério, gente, quero ver quem tem coragem de dizer o que eu acho que pensam quando fazem ou fazem cumprir regras desse tipo.

Eu me sentiria envergonhada, constrangida, se tivesse que orientar a babá a cumprir essas regras. Minha vontade é de orientar explicitamente a não cumprir, agindo de forma natural, fazendo o que precisar fazer para desempenhar bem sua função. Mas e aí, se vem aquele funcionário, todo cheio de razões, chamar a atenção da pessoa? Eu posso até ser a responsável e receber as penalidades, mas ali, na hora, quem vai passar o constrangimento de "ser colocada no seu devido lugar" é ela. Tenho o direito de expô-la a isso? Acho que é algo a se conversar de antemão, alertando-a do que pode acontecer e dizendo que temos sim o direito de questionar as regras e o dever de não ficarmos caladas diante do que achamos injusto ou sem sentido. Numa boa, sem briga e estando disposta a arcar com as consequências, sem que isso a humilhe, mas pelo contrário, estando segura de sua integridade ao não se deixar ser humilhada por regras escravocratas.

Poderíamos ir mais fundo e questionar a própria existência de um clube privado; poderíamos também nos resignar às regras, numa coisa de "se quer ser sócio é assim que funciona". Mas não. Meu instinto provocador não consegue se conformar a tal ponto. Posso até vir a deixar de frequentar o clube, mas não sem antes cutucar preconceitos, questionar regras antiquadas e usar a oportunidade para  repensar nossos valores, nossas atitudes. Ainda mais quando se trata dos exemplos que estamos dando às crianças.

Fico no aguardo de um BOM argumento que sustente essas regras. E enquanto ele não chegar, não as cumprirei. E também não vou abandonar a causa facilmente. Não vou me conformar que "ah, clube é assim mesmo, antro da burguesia"; Não, pessoal, eu devo isso a meus filhos. Não vou engolir esse pacote de preconceito e desrespeito.


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Trilogia das águas

Você que me lê sabe que eu gosto de planejar as coisas. Pra mim é uma forma de fazer a experiência "render", já vivenciando antes algumas sensações, mergulhando devagar naquilo que está por vir. Mas tenho aprendido a me libertar dos planejamentos e tem sido fascinante viver o inesperado, reconhecer os planos ocultos e me entregar ao correr das águas.

Pois sim, as águas.

Nessa gestação do Jorge tive três encontros muito significativos com as águas. E foi no último que me dei conta dessa trilogia, ou seja, não foi planejada. Aconteceu. E uma das coisas lindas de quando as coisas acontecem naturalmente é que quando elas se revelam a gente solta aquele "ooohhhh" de admiração, espanto, maravilhamento.

O primeiro episódio eu já contei aqui. Foi um banho de cachoeira pra lá de especial, cheio de ritos de conexão com a natureza e com o feminino. Foi algo que eu desejei, que se mostrou e que eu agarrei. Porque a diferença entre planejar e deixar rolar, pra mim, é mais por aí. O deixar rolar não é algo solto, desconexo. Deixar rolar é enviar intenções e estar atento aos desenrolares, fluindo junto, agindo junto. Planejar estaria mais para algo que sentenciamos e "forçamos" a acontecer... por isso tem um alto risco de acabar em frustração. Afinal, por mais força que tenhamos, não somos mais fortes que o fluxo da Vida; não temos como saber de antemão os meandros por onde ele vai nos levar...


O segundo episódio da trilogia veio no embalo do primeiro. Foi um banho Hammam, o tradicional banho turco, que é composto por banho de vapor (ou sauna úmida cá pra nós, mas que eu não fiz porque não é indicado na gestação), banho de imersão (ah, nesse eu me esbaldei! Fiquei lá de moooooolho, sentindo a leveza da barriga boiando) e banho de espuma, que é aplicado por uma terapeuta e inclui uma esfoliação, a espuma e uma massagem. Coisa dos deuses! Digo que veio no embalo do primeiro porque antes do banho de cachoeira, minha intenção era fazer um Hammam, aí surgiu a cachoeira e ela me levou, mas quando contei a história, a minha amiga Marina, que tem o único SPA no Brasil que oferece banho Hammam, o Azahar SPA, me presenteou com esse banho! Mais do que isso: presenteou a mim e ao PC (marido) com o banho e com a companhia dela e do marido. Coisa linda demais passar uma tarde com esses amigos queridos, em puro deleite, cuidado e alegria! O coração transborda de gratidão e merecimento...





E o terceiro episódio foi uma sessão de Watsu! Quem me recomendou e colocou em contato com a terapeuta foi minha doula. Eu nunca tinha feito e nem sabia como era, mas fui porque sabia que era bom, rs... e como foi! A sessão dura uma hora, numa piscina quentinha, de olhos fechados, sem tocar os pés no chão, como o corpo completamente entregue aos braços da terapeuta. Se quiser saber mais, faça! Nem sei "pra que que serve", só sei que é uma sensação maravilhosa de entrega, leveza e de estar sendo cuidada e amparada.

(essa imagem é do Google, rs... só pra ilustrar)

E agora no final, quando a trilogia se apresentou, percebi que uma mãe terra gestando um filho fogo precisaria mesmo do amparo das águas... fazer-me barro para então deixar-me queimar, na eterna transmutação alquímica da Vida.




quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Relato de pré parto

Já faz um pouco mais de duas semanas que estou em "trabalho de parto". Calma, rs... as aspas justificam-se. É que desde que estava na 37a. semana de gestação comecei a preparar o cenário, o figurino, a iluminação, a sonoplastia... até o roteiro para o tal do grande dia! E dá trabalho, né? Desde então muitos ajustes já precisaram ser feitos e a cada dia que passa um detalhe é adicionado. E parece que se eu viver toda uma vida pra esse preparativo, sempre terá alguma coisa a ser mexida, adicionada, repensada, transformada.

Tem sido bem interessante e um tanto quanto intenso. Muito, muito trabalho interior. Muitas descobertas de recônditos escondidos de minh´alma. Fico pensando nas coisas que vou escrever sobre esse parto. Fico pensando em como vou contar, que tom vou dar, que cores vou usar. E me pego num sentimento de que as experiências só são completas pra mim quando escrevo sobre elas. Ora pois, o que estou esperando então?! Vou começar já a contar o que está se passando por aqui!

Mas inevitavelmente penso "e se for uma cesárea?!". O primeiro reflexo é pensar que se for uma cesárea terá sido um fracasso de tudo o que eu quero contar. Por que eu vou contar toda orgulhosa sobre os insights que tive, se "no fim não deu certo"?! Tá, tá bom. Se eu sair dessa inteira o suficiente pra contar alguma coisa, terá dado certo. Tá, tá bom, o que importa é que mãe e bebê estejam bem. Eu sei, eu já passei por isso. Eu já passei por um sonho de parto natural que acabou numa cesárea que acabou bem.

Não que eu estar bem e meu filho estar bem sejam um prêmio de consolação. Longe disso. Não é um consolo, é um objetivo. Estarmos bem. Então não terá dado errado. E poderei falar tranquilamente dos meus insights pré-parto, rs...

Ao mesmo tempo parece que os "aprendizados" que venho tendo só serão validados se o desfecho for do jeito que eu quero. Algo como, ok, eu até deixo a vida me ensinar, mas eu tenho que criar um sistema de avaliação e indicadores quali-quantitativos pra verificar se aprendi mesmo!

E agora?

Tenho ouvido tanto sobre isso nos últimos anos. Sobre a importância de descondicionar, de abrir mão do controle (ou da ilusão do controle), de olhar e sentir o agora, de agir conforme o agora e não conforme regras e métodos pré-estabelecidos. Isso é tão fundamental ao lidar com crianças pequenas! Desde o parto... ah, o parto!

Não quero que o parto transforme-se num indicador. Mesmo porque, se acontecer de ser um parto natural, será esse meu diploma?! Vou sair por aí dizendo "olha, é importante descondicionar, abrir mão do controle, viver o agora", com um carimbo "parto natural" embaixo?! Não dá, né?

Então falo agora, com ou sem parto, com ou sem cesárea: é importante descondicionar, abrir mão do controle, viver o agora! E quem sou eu pra dizer isso? Qual é meu currículo? Quais são meus diplomas? Poderia dizer que minhas cicatrizes são meus diplomas. Poderia dizer que minha vida é meu currículo. Mas pra quê? Que importância isso tem? Por que eu preciso ter - e provar - credibilidade pra você?

Eu não quero provar nada pra ninguém. Eu não quero ser exemplo de nada. Não mesmo.

Eu quero que minha vida interesse a você assim como qualquer vida deveria interessar a qualquer ser vivo. Eu conto da minha vida pra me ouvir contando. Porque eu gosto, porque quando me ouço, cresço. E conto também pra quem sabe ter com quem conversar, e conhecer novas vidas e novas faces dessas vidas. Porque isso me fascina.

A Vida me fascina, me encanta, me surpreende, me entretém, me dá ideias, me cria hipóteses, me faz testá-las. E como é bom fazer isso com a seriedade e o descompromisso de uma criança. Enquanto alguém paga minhas contas. Mas o que tem a ver uma coisa com a outra?! Estou chegando perto disso também... desse tabu de não trabalhar, dessa sensação de que o trabalho é sagrado demais pra ser trocado por dinheiro. Eita! Quanta coisa foi aparecendo enquanto fui escrevendo!!!

Mas por enquanto vou ficando por aqui... com essa questão do trabalho pairando no ar. O trabalho, que abriu esse texto e que o fecha.

Por enquanto.


segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Entendendo a dor

Antes de mais nada, entender é ilusão. Porque quando a gente acha que entendeu, acha que entendeu "pra sempre", tipo, tá resolvido. E não é assim. Tudo muda o tempo todo no mundo. E o que era entendido passa a não ser mais. Mas o pior é quando a gente não se dá conta disso e acha que continua entendendo. Mas as coisas mudaram. E algo não encaixa. E não sabemos o que é. Até nos darmos conta de que precisamos re-entender. Ufa. A vida segue!

Dado esse preâmbulo, sigo com minhas mais novas descobertas sobre a dor.

Percebi que fui ensinada que dor é sinal de perigo, de alerta, de que algo não vai bem. Logo, se dói, é preciso "resolver" a dor. Alguns tomam analgésicos, outros aguentam mais um pouco até descobrir de onde ela vem, e aí tratá-la. Mas em ambos os casos a dor é encarada como sinal de que algo não vai bem. E não é só dor física. A lógica se aplica pra dor de cotovelo e outras tantas dores que dilaceram o coração, o orgulho, a alma. Há os que tapam o sol com a peneira e há os que vão investigar. Mas continuamos achando que a dor nada mais é do que um sinal de alerta, de que algo não vai bem.

Pois bem. Me parece, nesse meu novo entendimento sobre a dor, que a dor pode ser sim um sinal de alerta e coisa e tal, mas pode ser também uma mera consequência fisiológica de um processo absolutamente dentro dos conformes. Ah, mas se está dentro dos conformes, por que dói?! Porque faz parte. Porque é assim. E principalmente porque dor é uma coisa e sofrimento é outra. A dor, em determinados processos, é inevitável, faz parte, é assim mesmo. Já o sofrimento, esse é opcional. E a diferença pode estar justamente na forma como entendemos e encaramos e tratamos a dor. Há muito que reflito sobre isso e parece que uma nova peça se encaixou nesse enigma. É possível doer sem sofrer? Não só é possível, como essa dissociação pode ser a chave pra uma vida mais consciente, mais madura, mais alinhada e também, por consequência, mais leve e mais feliz.

Talvez você esteja cético sobre esses meus pensamentos, pedindo exemplos de situações onde a dor não é um sinal de que as coisas não vão bem. Vou te dar então o exemplo que me trouxe essa compreensão: o parto. (Ainda) não pari, mas foi num exercício preparatório, chamado epi-no, que me caiu a ficha. O negócio dói, e dói bastante. Mas tá tudo bem! E depois que passa, tudo continua bem (sem dor, inclusive). Num primeiro momento tive medo. O que aquela dor queria me dizer? Estaria eu fazendo alguma coisa errada? Consultei as pessoas que estão me orientando, consultei amigas que já usaram, e todas elas disseram que é assim mesmo. Que existe uma dor normal, aceitável, e que existe também uma dor que não pode acontecer, que seria sinal de que eu não estaria fazendo direito, ou estaria forçando a barra. O meu caso era o primeiro. Estava tudo certo e mesmo assim doía e com (quase) todo mundo dói.

E isso é só um exercício preparatório. Imagine o parto de verdade! Tem mulher que tem a coragem de falar que não sentiu dor no parto. Mas muitas, muitas, muitas contam que dói pra caramba. Mesmo quando o parto acontece de forma respeitosa, natural, na água, em casa, com massagem, com marido, com doula, à luz de velas e com sons da natureza. E aí, o que tem de errado com esses partos? Qual o alerta que a dor está dando? O que não vai bem? Alguns dizem que são nossos pecados que nos fazem doer. Outros dirão que o que não vai bem é a ideia insana de ter um filho, rs... mas nenhum desses argumentos me convence. Pra mim dói porque a dor faz parte. E pronto. Pode não fazer parte pra todas, mas se dói pra mim, faz parte pra mim. E tudo bem! Passa. Tudo passa.

Essa compreensão da dor pode nos dar um pouco mais de trabalho, porque incluímos uma nova variável no entendimento da dor. Se ela não é simplesmente um sinal de alerta, se ela pode ser parte normal de um processo normal, como saber quando é uma coisa e quando é outra?!

Estando atento e forte. Estando consciente. Estudando. Ampliando os horizontes. Saindo do mundinho binário onde ou é ou não é. Entendendo que tudo pode acontecer e que as coisas se transformam, transmutam. OTEMPOTODO!

E o que dizer então da dor de uma separação? Não é porque separou que "algo não vai bem". Às vezes, na grande maioria das vezes, separou porque tinha que separar, porque deu, porque morreu - e morrer é natural. Mas a dor faz parte. Separar dói, desgrudar dói (e o que seria um parto se não uma grande separação?!). Então deixa doer. E talvez o sofrimento apareça justamente quando a gente não quer deixar doer, mas não consegue, porque a dor é inevitável, e aí vem uma frustração, um sentimento de impotência, uma coisa de "como assim não vai parar de doer?", "como assim eu não estou no controle?".

O sofrimento também vem com o medo da dor. O medo de saber de onde vem a dor - "o que essa dor está querendo me dizer?!" - e o medo do que virá com aquela dor - "vou morrer, vou perder um pedaço". A todo momento o exemplo do parto volta, e penso que o parto é também uma forma de morte, de deixar de ser o que se era; é perder um pedaço, um que vira dois. E por algum motivo a gente tem medo disso, mas esse medo é uma crença, é um apego, é algo construído e não algo baseado em Leis, aquelas que regem a vida e que independem de nossas vontades, valores e conhecimentos.

Um outro insight sobre a dor, só pra não ficar naquela coisa de "é porque é", é que sua função, tanto em processos naturais, quanto em processos de alerta, é nos manter focados no processo. É um recurso extremo para que não desviemos um milímetro do olhar, da atenção. Se dói, preste atenção no que a dor indica E EM NADA MAIS. É essa a mensagem que escuto da dor. Lembrando que "prestar atenção" não é se afundar na dor, sofrer com a dor, se martirizar pela dor. E se forçamos a barra pra nos desviarmos da dor? Seja com analgésicos, seja com qualquer bobagem que nos distraia? Não quero ser alarmista, mas a mensagem que ouço da dor nessas horas é "eu voltarei. E voltarei mais forte!".

Sabe aquela coisa de "aceita que dói menos"? Eu não sei se dói menos - talvez sim, tanto em frequência quanto em intensidade - mas certamente sofre menos. Aceite a dor, siga as instruções da dor e ela te guiará pelos seus medos, pelas suas preocupações, pelas suas crenças. Não parece a mais agradável das viagens, mas pelo jeito não tem muita escapatória. Quem fica parado é poste! Vamo que vamo. Encare-os, medos, preocupações, inseguranças, crenças, todos, de cabeça erguida e coluna ereta. Não os abrace, não deixe com que medos, preocupações, inseguranças e crenças limitadoras tomem conta de você. Observe-os, conheça-os, trace um mapa. Não se canse. Você não precisa resolver tudo de uma vez; talvez até não precise resolver nada, apenas mudar sua postura diante dessa parte sombria do seu ser, que por algum motivo nos ensinaram a manter na sombra, a não mexer - pura crença! Solte as tensões do corpo, não há o que temer. Na verdade, há sim. Há que se temer apenas o auto-engano, a desatenção consigo, a falta de consciência sobre sua própria vida.

É preciso estar atento e forte. E se você não souber por onde começar, comece por suas dores.